Termos como Câmara de Vereadores, instauração de medidas provisórias, votação no Senado, criação de projetos de lei e Impeachment parecem muito distantes de nós, não é mesmo? Com isso, todo aquele sentimento de mudança e revolta acabam ficando reclusos em nossos pensamentos e, no máximo, em textões no Facebook. Para o senso comum, o único caminho efetivo para ocasionar transformações políticas é longo e penoso: se filiar à um partido, se candidatar a um cargo político (começando com aqueles de menor relevância no cenário nacional), ganhar eleições para, então, exercer a política.

Mas esse sistema tradicional e burocrático foi hackeado. A internet possibilitou a criação de diversas redes hackerativistas que fazem o cidadão se relacionar diretamente com a política através da educação, discussão e implementação de alternativas práticas nos governos.

Entendendo o hackerativismo.

Um dos principais – se não o principal – fator que distancia as pessoas da política é a falta de informação e acesso a dados oficiais. Mesmo com a criação da lei de acesso à informação (nº 12.527/2011), em vigor desde maio de 2012, muitos dados ainda são velados e, na maioria das vezes, trazem uma linguagem jurídica que não pode ser compreendida por todo mundo. É a partir disso que surgem alguns grupos dispostos a mudar a forma que enxergamos as discussões políticas.

“… através de sofisticados protocolos de encriptação de dados, alguns grupos conseguem navegar na internet sem serem detectados pelos mecanismos de controle existentes na rede. Mais ainda: através dessas formas de navegação, esses grupos conseguem acesso a informações que, de outra maneira, são invisíveis aos usuários comuns”. (Danilo Spinola Caruso, professor do IFRJ).

Essa é a filosofia hacker aplicada à participação política. O termo “hacker” foi criado em 1960 por um grupo de estudantes do Massachusetts Institute of Technology (MIT), que acabaram iniciando um grande movimento. Esse grupo, entusiasmado com seu trabalho, compartilhava conhecimento técnico e científico de modo aberto, indo contra a ética do trabalho industrial descrita por Max Weber, até então predominante no cenário econômico.

Os primeiros hackers do MIT criaram um novo sentido de trabalho para a Era da Informação, em que cada avanço é compartilhado abertamente com o intuito de gerar novas descobertas e melhorar as pesquisas de forma colaborativa. Dentro das atividades hackers, existem diversas subdivisões específicas que se enquadram em três macro-classificações: white hat, que são os “hackers éticos”, os  black hat, que normalmente cometem crimes de segurança como roubo de senhas e dados bancários e os gray hat, que ficam entre os dois primeiros.

Para entender melhor as subdivisões e a diferença entre elas, ouça o podcast Hackers, Crackers e Dieckmans do Jovem Nerd.

Os precursores do hackerativismo na política.

1) Wikileaks

O Wikeleaks surgiu em 2006, como uma organização que combina tecnologia e jornalismo. O principal objetivo do site era a divulgação de documentos secretos de empresas e governos para democratizar informações que seriam escondidas da população. The New York Times, Le Monde, El País, Der Spiegel e The Guardian são alguns dos jornais que tem a organização como parceira na apuração de informações e construção de banco de dados.

Entre os vazamentos feitos pelo Wikileaks destacam-se a exposição de diversos documentos e telegramas secretos estadunidenses que comprovam a morte de milhares de civis na guerra do Afeganistão em 2007 e a coleção de 391.832 relatórios, também do exército americano, sobre a Guerra do Iraque, que vão de 1º de janeiro de 2004 a 31 de dezembro de 2009.

Em 2011, o Wikileaks foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz pelo parlamentar norueguês Snorre Valen.

“O Wikileaks é uma das contribuições mais importantes para a liberdade de expressão e transparência ao divulgar informações sobre corrupção, violação dos direitos humanos e crimes de guerra”.

O fundador do Wikileaks, Julian Assange, é constantemente acusado e perseguido por diversos governos, sob acusações de crimes que variam de espionagem a abuso sexual. Em contrapartida, o australiano tem apoio de grandes líderes mundiais, como Vladimir Putin e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No Brasil, o Wikileaks divulgou em maio de 2016 documentos datados de 2011 com declarações do atual presidente do Brasil, Michel Temer. O presidente teria afirmado que o desempenho do então presidente Lula era decepcionante, abrindo a possibilidade do PMBD lançar o seu próprio candidato na próxima eleição presidencial (leia os telegramas na íntegra aqui e aqui). Na sequência, a organização tweetou que Temer chegou à presidência com um golpe, gerando novas polêmicas.

2) Anonymous

O Anonymous surgiu em 2004 como um fórum de participação anônima de hierarquia horizontal e apartidário. O primeiro ato do grupo que ganhou repercussão internacional foi a série de protestos contra a Cientologia no ano de 2008. Após o vazamento de uma entrevista com o ator Tom Cruise no YouTube, a igreja pediu a retirada do material da internet, alegando violação de direitos autorais. Em resposta, o Anonymous organizou uma série de ataques contra sites da religião, trotes e protestos em centros de reuniões dos fiéis com o objetivo de revidar e bloquear essa tentativa de censura.

Outra ação foi a Occupy Nigéria, que aconteceu junto aos grupos Naija Cyber Hacktivists of Nigeria e Frente Popular de Libertação, garantindo o reajuste do preço da tarifa do transporte público, após um aumento desenfreado no valor do combustível por conta da retirada do subsídio governamental.

No Brasil, além da Revolta do Vinagre (que também aconteceu devido ao aumento do valor da passagem do transporte, em 2013), o Anonymous atuou durante a Copa do Mundo de 2014 trazendo à tona reivindicações sociais e expondo ao mundo injustiças cometidas pela organização do evento, buscando atrelar essas problemáticas às grandes corporações que patrocinavam a competição.

“Somos uma ideia de mudança, um desejo de renovação. Somos uma ideia de um mundo onde corrupção não exista, onde a liberdade de expressão não seja apenas uma promessa e onde as pessoas não tenham que morrer lutando por seus direitos. Oficialmente não existimos e não queremos existir oficialmente. Nós não seguimos partidos políticos, orientações religiosas, interesses econômicos, nem ideologias de quaisquer espécies. O Anonymous não tem líderes, porque nós não podemos ser representados ou liderados, porque isto é o que somos: uma ideia”.

Como participar ativamente da política?

Inseridos nesse contexto hackertivista, diversos outros grupos, institutos e ONGs surgiram com o intuito de possibilitar uma participação ativa da população na política. Durante o Aldeia Summit, a conferência sobre realização, talento e coragem que rolou aqui na Aldeia, duas alternativas acessíveis e efetivas para essa participação foram discutidas: o Instituto Atuação e o Code for Brazil.

O Instituto Atuação é uma organização apartidária, sem fins lucrativos e com enfoque em pesquisa, estratégia e articulação. A ideia é transformar o Brasil em uma democracia plena, com base na participação política, transparência pública e cultura democrática.

O último índice de democracia da The Economist Intelligence Unit (cujos princípios norteiam o trabalho do Instituto Atuação) mostra que a democracia brasileira vai de mal a pior. Entre 2013 e 2015, o Brasil ocupava a 44ª posição do hanking e, em 2015, caiu para a 51ª, apresentando a sua pior participação nos dez anos em que o estudo é realizado. Com o título A Democracia em Tempos de Ansiedade, as métricas utilizadas para a composição desse índice são: liberdades civis, processo eleitoral e pluralismo, funcionalidade governamental, cultura política e participação política.

Para melhorar essa colocação, o Instituto Atuação (que fica na cidade de Curitiba) promove eventos, estudos e projetos abertos a qualquer cidadão interessado em participar ativamente da política.

Já o Code for Brazil é uma comunidade com foco em tecnologia, que promove um ecossistema de inovação cívica para melhorar a qualidade de vida nacional. Inspirado no Code for America, o segmento brasileiro segue as mesmas premissas, embasadas na política do século 21:

Começar com as necessidades das pessoas:

Comece projetos através de pesquisas com pessoas. Isso permite que você entenda, de fato, quem elas são e quais são as suas necessidades reais, o que elas precisam e como se comportam. Faça testes contínuos com os usuários e aperfeiçoe a política a partir da experiência e relatos pessoais.

Garantir que todos possam participar:

Crie alternativas que envolvam todos os membros da comunidade de forma produtiva. Para isso, use linguagens simples e diferentes tipos de canais para alcançar as pessoas onde elas estiverem.

Começar pequeno e melhorar continuamente:

Quando você estiver construindo ou comprando tecnologia para o governo, disponibilize um Produto Mínimo Viável (MVP) nas mãos das pessoas o mais cedo possível. Além disso, faça testes frequentes com usuários e estabeleça melhorias com base nesse feedback.

Usar dados em tempo real para tomada de decisões:

Defina métricas-chave para determinar se programas e serviços estão atingindo objetivos previstos. A partir dessas métricas, analise os dados para obter insights que conduzirão ações focadas na melhoria dos resultados gerais da comunidade.

Ter a abertura como padrão:

Trabalhe sempre de forma aberta, publique dados e pesquisas na internet, tendo como foco a colaboração no desenvolvimento de projetos.

Construir o time certo:

Invista sempre em pessoas que valorizam o papel do ambiente digital em todos os níveis da organização. Aumente as competências digitais da sua equipe e contrate profissionais de tecnologia, possibilitando a construção de equipes multidisciplinares focadas na entrega.

Tome decisões tecnológicas embasadas:

Compreenda como, quando e onde construir, comprar ou usar a tecnologia existente com o intuito de executar operações eficientes e eficazes e entregar serviços online que realmente atendam às necessidades das pessoas.

O Code for Brazil desenvolve eventos e projetos como o aplicativo Vizin, uma alternativa para promover a segurança dos bairros. Funciona assim: uma rede colaborativa é construída com base na geolocalização das pessoas, que podem criar alertas de insegurança e ajudar outras pessoas que moram ou transitam por aquelas regiões.

Outro projeto da comunidade é a ferramenta interativa LegisCon, que promove a vigilância do congresso nacional pelos cidadãos. O aplicativo ainda está em fase demo, mas já oferece um resumo acessível dos projetos de leis, com anexos dos textos na íntegra, apresentando informações breves de cada congressista e o status dos projetos. O LegisCon ainda possibilita a votação da lei pelo usuário e promove uma área de debate sobre cada proposta.

E esses são apenas alguns exemplos. Você, como cidadão consciente que quer provocar mudanças na política e na sociedade, não tem mais desculpas para não se engajar:

Participe de grupos hackerativistas que defendam ideais que você acredita.

Além do Instituto Atuação e do Code of Brazil, existem diversos outras alternativas para se envolver no hackerativismo e alguma delas, certamente, lutará por pautas que você defende.

Crie alternativas hackerativistas.

Se você identificou alguma necessidade específica no seu ambiente escolar, local de trabalho ou comunidade, crie soluções. A internet possibilita a realização de alternativas simples para a realização de projetos em diferentes escalas, de grupos locais nas redes sociais ao desenvolvimento de aplicativos. Encontre parceiros estratégicos e promova mudanças.

Saiba que não é preciso manjar de tecnologia para ser um hacker.

Você pode participar de fóruns, da criação de soluções e do desenvolvimento de ideias alternativas a partir de premissas hackers, mas sem programar uma linha de código. A criatividade, engajamento e rapidez nas ações contam muito.

São alternativas e grupos diferentes, que permitem explorar e participar da cidadania de maneira prática e consciente. Escolha aquela que mais se adequa o seu perfil e mãos à obra.

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